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ENTREVISTA EURICO BRILHANTE DIAS

Secretário de Estado da Internacionalização

O Secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, foi braço direito do então Secretário-Geral do PS, António José Seguro, tendo estado responsável pela elaboração do programa Indústria 4.0. Professor Universitário, foi membro do Conselho de Administração da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP). Assume, desde julho de 2017, a pasta da Internacionalização no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

 

Portugal está finalmente a afirmar-se como um país exportador? O que considera serem os principais fatores de competitividade das empresas portuguesas no mercado global?

Importa começar por assinalar o trabalho meritório desenvolvido pelos empresários e pelas nossas empresas. Efetivamente, ainda dentro de uma conjuntura económica desfavorável, os empresários ousaram arriscar e direcionar-se para o mercado internacional de forma mais consistente, articulada e que contou, naturalmente, com o fundamental apoio das associações no caminho percorrido. 

Hoje temos uma geração de empresários diferente, que soube acompanhar as mudanças existentes no processo de globalização. Somos competitivos pela diferenciação no que produzimos e os resultados verificam-se nos assinaláveis valores atingidos nas exportações (em 2017, o valor das exportações no PIB foi superior a 43%). O produto português, independentemente do setor, é reconhecido sobretudo pela qualidade, diferenciação e inovação. A adaptação à era digital, a incorporação de novas tecnologias à indústria e serviços são outros pontos determinantes, assim como as qualificações dos recursos humanos, que na maioria dos casos têm fluência em uma ou duas línguas estrangeiras. Temos evoluído positivamente e este é o caminho que devemos continuar a trilhar.

 

E, na sua visão, o que falta fazer pelo posicionamento da marca Portugal nos mercados externos?

O governo aprovou, no final de 2017, o Programa Internacionalizar - com o grande objetivo, entre outros, de promover a Marca Portugal. É, por isso, importante salientar que as marcas setoriais já existentes - como o Portuguese Jewellery, no setor da ourivesaria, Portugal Shoes no setor do calçado, Metal Portugal no metalomecânico, ou PortugalFoods no agroalimentar, entre outras - continuarão a existir. Estas marcas, resultantes de um investimento coletivo, já são internacionalmente reconhecidas pela sua qualidade. Hoje o objetivo é consolidar uma “marca- chapéu” uma marca representativa do país no seu “todo”, transversal e intersectorial, que alie a tradição, a história, a inovação e a cultura ao turismo e à economia. O Conselho Estratégico para a Internacionalização da Economia- CEIE, Conselho interministerial dependente do Primeiro-ministro, tem um grupo de trabalho que trata a marca país; a AICEP está a desenvolver um programa designado Cross Selling para promover a imagem de Portugal, em parceria com as empresas; e as associações empresariais também têm instrumentos disponíveis para atuarem nesta matéria, nomeadamente através do sistema de incentivos. Uma marca sólida, bem estruturada em consonância com as marcas setoriais fortalecerá a imagem de Portugal.

 

Quais são as grandes metas para 2018? 

Portugal tem registado crescimentos assinaláveis. Em 2005 as exportações de bens e serviços rondavam os 25% e no final de 2017, alcançou os 43.1% das exportações sobre o PIB. O investimento direto estrangeiro atingiu, em 2017, novo record em stock de investimento, ultrapassamos os 63% de valor equivalente ao PIB, um crescimento de 2% face a 2016. O investimento tem uma importância central porque está diretamente relacionado com as exportações nacionais temos como exemplo o setor automóvel:
a Autoeuropa, PSA, ou a Mistubishi - mas também ao nível dos serviços, com a recente vinda do Google, que terá um centro de operações a partir de Portugal. No que respeita à captação de IDE pretendemos que este colmate as falhas na cadeia de valor. Este crescimento reflete claramente o trabalho desenvolvido pelos empresários e pelas empresas portuguesas, mas também uma aposta forte e continuada das políticas públicas de promoção da internacionalização da economia portuguesa. Nesse sentido, a grande meta para 2018 é continuar a percorrer, com sucesso, este caminho de aumento das exportações e de captação de investimento direto estrangeiro. 

 

O setor da ourivesaria portuguesa esteve durante muito anos focado no mercado interno, mas, nos últimos anos despertou para a internacionalização e tem registado números recordes e taxas de crescimento muito acentuadas (na ordem dos 500% desde 2008). Que conselhos daria aos nossos empresários que estão ou pretendem investir na internacionalização do seu negócio? 

O caminho da internacionalização é um processo exigente mas fundamental para garantir o sucesso empresarial, assim como a afirmação do país. Este processo exige preparação prévia, uma estratégia sólida e bem definida. Ao iniciar este trajeto, os empresários devem analisar as condições competitivas da empresa, os elementos em que são diferenciadores, o meio onde se inserem, assim como as fragilidades que possam existir e saber ultrapassá-las. Depois de garantir as condições competitivas, deve-se fazer a seleção do mercado, e nesta fase, ponderar diversos fatores, como posicionamento geográfico, proximidade cultural, acordos comerciais existentes, o potencial de venda, assim como as dificuldades de entrada no mercado (a concorrência, questões de câmbios, barreiras tarifárias, entre outros) e o financiamento. Ultrapassada essa fase, é fundamental analisar as redes de contactos, como as delegações da AICEP, associações empresariais, câmaras de comércio bilaterais e mesmo a diáspora.
É importante a considerar estes agentes económicos, pois têm um conhecimento aprofundado e informação relevante do mercado selecionado. Uma estratégia de abordagem de mercado bem definida gera resultados positivos, como é exemplo disso o setor da ourivesaria.

 

O Governo, em consonância com a AICEP, tem desenvolvido vários programas de apoio à internacionalização. Qual a estratégia do Governo em termos de apoios em relação às PME e microempresas?  

O nosso tecido empresarial é predominantemente constituído por micro e PME´s, e as políticas públicas tem sido orientadas atendendo a esse segmento. Conforme materializado no Programa Internacionalizar, epicentro da estratégia de internacionalização do Governo, há um conjunto de medidas identificadas. É preciso assinalar que estas medidas são desenvolvidas por entidades públicas em articulação com entidades privadas, através dos Grupos de Trabalho do CEIE. As medidas do Internacionalizar têm cinco eixos fundamentais; são elas a promoção da Marca Portugal, já referida anteriormente; o Business and Market Intelligence, que visa um levantamento aprofundado da informação disponível sobre os mercados-alvo; a qualificação dos recursos humanos e do território; o apoio no acesso a mercados e ao investimento em Portugal; e, finalmente, o financiamento. Ao nível do financiamento, foram criadas as linhas de apoio no quadro do Programa Capitalizar e o exercício de reprogramação do Portugal 2020, que permitirá manter os níveis de apoio ao investimento que atingimos nos anos anteriores.

 

Outro ponto que caracteriza o atual momento do setor da ourivesaria é a incorporação do design e criatividade pela via do surgimento de novos atores vindo de diferentes áreas criativas e que encontram na joalharia a sua área de criação. Como vê o papel das Associações na instigação destas dinâmicas? A AORP tem vindo a desenvolver estratégias e ações concertadas com outras associações do setor têxtil e calçado, no sentido de afirmar a fileira da moda portuguesa internacionalmente. Qual a sua visão sobre esta união entre associações de diferentes setores? 

As associações têm sido agentes económicos fundamentais no processo de internacionalização. Esta vossa coordenação, que se completa entre si, é uma dinâmica positiva que poderá ser reportada a outras fileiras. Aliar a indústria às artes criativas gera valor, não só ao nível empresarial, mas também cultural. Esta articulação fortalece os resultados das empresas e das associações e contribui decisivamente para a afirmação e promoção empresarial do país no exterior.

 

Uma das grandes missões do seu mandato tem sido a captação de investimento direto estrangeiro. Como vê esse investimento no setor da ourivesaria e que estratégia está a ser planeada nesse sentido pelo Governo? 

O Governo não discriminará, positiva ou negativamente, nenhum setor. Ao nível da captação de investimento, procurará sempre valorizar as nossas vantagens competitivas enquanto país face a outros potenciais destinos de IDE.

 


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05 · 06 · 2018